É o vento, e nada mais.

July 11, 2008

Haikai

Filed under: Poemas — The Son of Nothing @ 5:58 pm

Ir-me embora agora
Em meio às neves hibernais
É um último adeus
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Chega o inverno
Trazendo em si a saudade
Do que nunca foi
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Nomes do passado
Sussurrados nos umbrais
É o vento, e nada mais
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Em uma escola
Vejo o inverno chegando
E a vida indo embora
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Um amor morreu
Em uma noite outonal
Triste Paulicéia

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Luzes no céu à noite
Fogo-fátuo ou estrangeiros
De um mundo distante?

June 20, 2008

Erotomania

Filed under: Uncategorized — The Son of Nothing @ 12:54 am

Para uma pequena grande pessoa.

Visão do que nunca havia sido
Um sonho que demora pra passar
Em meio a corações partidos
E ao medo daquilo que virá

Eu, tão desprezível e errado
Buscando qualquer porto seguro
Tateio incerto pelo mundo
Atrás do apoio de tuas mãos

Mas tu, tão bela e sonhadora
Recolhe as mãos, remerosa
De que uma alma tão sofredora
Seja só uma máscara maliciosa

E, sem teu apoio, eu caio
No limbo da desesperada loucura
Enquanto, doente, continuas
A tomar amizade por coisa impura

És linda, devo confessar;
Inteligente, pura, tudo que sonhei
Tantas virtudes tem para exaltar
Mesmo assim, nunca te amei.

June 14, 2008

Hello World

Filed under: Uncategorized — The Son of Nothing @ 10:01 pm

A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia. há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo… Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior, é outra cousa a certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.

Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência. filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma “História dos Subúrbios” menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?…

Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo.”

-Machado de Assis, Dom Casmurro

Eis aqui um blog mais pessoal, sem a intenção de atrair visitas.

Meu único objetivo é postar aqui os textos que eventualmente sejam subjetivos demais para o Far Beyond Sanity e deixar aquele blog para meus textos mais sérios e eventualmente legíveis.

More to follow.

Fugere orbem

Filed under: Far Beyond Sanity, Poemas — The Son of Nothing @ 9:57 pm

O peso de um mundo inteiro jaz

Sobre meus ombros; estou cansado
Cansado de tanta mentira
Cansado de tanto sofrer
Cansado de nunca ter paz
Cansado, até mesmo, de ser

Cansei de ser um reles pária
De ser uma sombra do que fui outrora
De ser uma marionete do destino
De ser forçado a usar essa máscara
De ser tão sedento pela efêmera glória

De ter de viver pelos sonhos de outrem
De ter de ver tantas esperanças destruídas
De ter de abaixar a cabeça e dizer amém
De ter de abandonar tantos desejos condenados

De comer o pão que o diabo amassou e jogou fora
De viver a vida como mórbido cassino
De escrever tantas linhas sem sentido

De sentir falta daquilo que nunca foi
De partir sem deixar saudade

Será que existe vida em Marte?

Adab

Filed under: Uncategorized — The Son of Nothing @ 9:53 pm

Minha nobre e formosa Senhora,

por tudo o que é mais sagrado,

me explica por que sádico fado

estou tão longe de ti nessa hora?

Devo haver cometido, por certo,

crime hediondo, grande pecado,

para ser de tal modo condenado:

Não te ter, mas estar sempre por perto.

Se não tivesse eu tanto temido

Amar, talvez tivesse percebido :

-És tu! E jamais teria sofrido.

Tantas canções de amor feitas

por tantos sonhadores que quiseram

que fossem assim como tu: Perfeitas.

—————-

Adab é um termo árabe que se refere à cultura; Frank Herbert, em seu livro Duna, a utilizou para representar uma memória insistente. É apropriada para o título, uma vez que este poema saiu quase formado de minha cabeça, tendo me causado uma noite de insônia antes que levantasse e o escrevesse.

A lifetime of memories

Filed under: Far Beyond Sanity, Uncategorized — The Son of Nothing @ 9:43 pm

Tanto tentei escapar do passado
Abandonar o que tinha acreditado
Com um sorriso falso e amador
Para esconder tamanha dor

Tudo muda sob o sol
Mas, no fundo, sempre é o mesmo
E, como um covarde, fujo a esmo
Procurando um descanso(, a)final

Em um sorriso teu vejo minha Pasárgada
Em teus lábios, uma razão de vida válida
Mesmo que sejamos apenas em sonhos amantes
Mesmo que, ao acordar, eu volte ao vazio dantes

A vida continua, mas também a dor
Essa é a parte que esquecem de contar
E, procurando remédio para tanto pesar,
Perco-me nas vias desse mundo do Criador

A Pure Heart For You

Filed under: Far Beyond Sanity, Poemas — The Son of Nothing @ 9:42 pm

Como falar sobre você
Sem recair em algum clichê
Daqueles que qualquer condenado
Usa quando está apaixonado?

Como deixar de ser trivial
Ao falar de sua beleza
Ou mesmo de sua pureza
Se tantos (melhores que eu, até!) tentaram algo igual?

Não que sejas como as outras
As Marílias e Beatrizes, tão exaltadas…
Ao contrário: Por seres tão distinta e bela
É que vos louvar é tarefa tão árdua

Mas tanto trabalho não será à toa, não
Se este poema, puro e singelo,
Me valer um sorriso em seu rosto belo
E um lugar em seu coração.

Dueto em mote e glosa

Filed under: Far Beyond Sanity, Poemas — The Son of Nothing @ 9:38 pm

Dois espíritos muito dissonantes
Pelo mundo um dia se encontraram
Andaram por tantas vias distantes
E, de súbito, se apaixonaram

Inspiração fúlgida
Pensamentos únicos
Intenção em dúvida
Esperança malgrada

Sentença dada
Ação consumida
Esperança inesperada
Desesperada

Dado, roubado, condenado, tirado, tudo
Amor mais confuso do mundo

E agora, confuso e errante,
Perambulo trêbado pelo mundo
Tentando levar a vida adiante
Até que algo faça sentido

Untitled #1

Filed under: Far Beyond Sanity, Poemas — The Son of Nothing @ 9:37 pm

Gira a Roda da Fortuna
Como se tivesse sádico humor
Às vezes rimos na desventura;
Ou na vitória padecemos de dor

Não se pode prever o fado
Que nos assola ou conforta;
Como em um filme fracassado,
A audiência, também, pouco se importa

E assim, marionetes solitárias
Erramos pelo mundo como que em ronda
E tergivesando por vias várias
Tentando nos equilibrar na grande onda:

A Vida, amada ou odiada
Mas jamais ignorada

Langues

Filed under: Uncategorized — The Son of Nothing @ 9:35 pm

Je suis un misérable
So cursed by this wretched world
Que jo so puedo pensar:
Fortuna me vincit

La vita, che bella!
But it’s not for me
No tengo o que hacier
En tal mundo
E nem ele parece me querer

-C’est un hellequin!
-Un monstro, Dios mio!
-Such a hideous beast!
-Merece logo a morte
-Forse vivere sia peggiore

Será que adiantaria dizer:
Je suis comme vous!
(Cogito, ergo sum)
How can I prove I deserve
La vida, también?

J’ai besoin d’un amour
A soul that can understand me
Más ahora, soy apenas un trobador
Cantando bêbado e só, assim

—————————-

Com uma pequena correção ortográfica (um doce para quem acertar qual

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