Maturidade. Mais do que uma avaliação de conhecimento, o exame conhecido como “vestibular” busca selecionar, dentre uma vasta quantitade de candidatos – majoritariamente jovens -, aqueles com o perfil adequado para um curso de Ensino Superior; funciona, desta forma, como um rito de passagem, em que o sucesso é acompanhado da aceitação e o fracasso tem um grande preço.
O objetivo principal do vestibular não é a avaliação do conteúdo aprendido durante o Ensino Médio brasileiro, notadamente deficitário e por demais orientado ao desempenho nos exames de admissão às universidades. Se fosse, não existiriam iniciativas como o Inclusp, que aumenta a nota no vestibular da FUVEST dos alunos que fizeram o Ensino Médio em escolas públicas, uma vez que tais programas favorecem alunos que teoricamente carecem da base teórica daqueles que atingiram notas semelhantes, mas sem contar com nenhum bônus. No entanto, mesmo quando não foram tornadas obrigatórias por leis, elas existem.
Ao contrário das cotas, o método atualmente em voga para a compensação das desigualdades da educação brasileira, sistemas que beneficiam os alunos através de acréscimos percentuais sobre a nota conseguem fazer o papel inclusivo ao mesmo tempo que retêm o caráter discriminatório do vestibular. Por recompensar mais aqueles alunos que tiveram um bom desempenho, tais programas visam nivelar o vasto abismo existente entre as escolas públicas e privadas no Brasil, permitindo que os alunos concorram em pé de igualdade, enquanto as cotas segregam os alunos beneficiados por elas, criando como que um concurso alternativo.
O vestibular é um método seletivo bem discriminatório (não poderia ser diferente, uma vez que as vagas não são suficientes para todos); mas se ele não discrimina o conhecimento adquirido na vida escolar prévia, quais são os seus critérios? Os manuais de vestibulares como o da USP e o da Unicamp oferecem várias visões, por vezes conflitantes. Em comum entre tais exames, porém, exite o objetivo de identificar o que o ENEM chama de competências: a capacidade de interpretação, de raciocínio lógico, essencial para o aluno de qualquer curso universitário. A introdução das questões interdisciplinares no vestibular da FUVEST evidencia o fato de que, mais do que o aluno que tenha conhecimento prévio, busca-se aquele com maior capacidade de aprendizado e desenvolvimento mental – e psicológico, uma vez que é necessário lidar com o estresse decorrente das pressões com relação ao sucesso no exame.
A pressão sobre os jovens é ainda maior. Um adulto, ao prestar vestibular, está tenntando melhorar de vida ou realizar um sonho, mas sua vida já está basicamente encaminhada; já o jovem possui um imperativo: ele deve passar, para conseguir um bom emprego e satisfazer as exigências da família, da sociedade. Para os adolescentes, o vestibular passa a ser um rito de passagem para a vida adulta, como o seria a circuncisão ritual em tribos africanas. Para os bem-sucedidos, permite-se o acesso ao Ensino Superior, abrindo muitas possibilidades profissionais e pessoais para o futuro. Àqueles que fracassarem, no entanto, restam atividades tidas como socialmente inferiores.
Deve-se o formato do exame vestibular às condições sociais e econômicas presentes no Brasil contemporâneo, que fazem com que o ingresso em um curso universitário seja a diferença entre uma vida economicamente confortável e a carestia, entre a ascenção social e a marginalidade. Dessa forma, o vestibular se assemelha em propósito – se não em forma – aos ritos de passagem para a vida adulta de tribos ao redor do mundo. Mesmo a brutalidade e a dor presente em alguns destes encontra paralelo no estresse a que se submetem os jovens. A essência é a mesma.