O caos. Eu amo o caos. Talvez ele seja a minha única outra paixão verdadeira, afinal. Por um tempo, julguei gostar de outras coisas: alguns sonhos aqui e acolá, algumas paixonites que vieram e passaram em um átimo, a eterna e incessante busca pelo conhecimento… Todas essas coisas me atraíram por algum tempo, todas elas me custaram algo, deixando suas marcas. E todas, agora, parecem igualmente fúteis.
Qual o sentido de tanto trabalho? Anos de estudo, sacrifícios, exclusão, uma vida toda de trabalho que pode ter todas as suas bases removidas em alguns instantes. Como fica um pai de família que perde sua mulher e seus filhos por um acidente besta, talvez causado por alguém que estava bebendo em horário de serviço? Alguém que dedicou a vida a um sonho e o vê destruído por forças com as quais simplesmente não pode competir?
E mesmo o triunfo é algo meio sem sentido para quem pensa no futuro. Cada triunfo aumenta as expectativas da próxima vitória, os limites a serem rompidos, até que se chega a um ponto em que a única coisa que se pode fazer é sentar em mediocridade e olhar para o passado. Genghis Khan ergueu um império de vastidão fabulosa, e o que foram seus sucessores perto dele? Como é difícil ser um matemático ou um físico nos dias de hoje, em que parece que todas as coisas importantes já foram provadas!
O que fazer depois de alcançar o objetivo de uma vida? Morrer, como fez Galaaz, satisfeito de ter cumprido sua missão? Sentar confortavelmente numa cadeira de balanço, olhando o sol se pôr e lembrando do preço de tudo isso? Buscar outro objetivo, talvez, mas isso é empurrar com a barriga o problema. Paradoxalmente, a vida perde o sentido quando se encontra o sentido da vida.
E, dessa forma, o que resta? A morte.
E o que é a morte? Citando Sir Hob Gadling, “Acho que é uma coisa lenta. Como um ladrão que vem à sua casa todo dia, levando uma coisa aqui e outra acolá, até que certo dia, você anda pela casa e não tem nada mais do seu agrado, nada que faça uma pessoa querer ficar. Aí você se deita e se cala para sempre. Um monte de pequenas mortes até a última e a maior”. Sempre existem as mortes por fatores externos. Insh’Allah. Mas boa parte das formas como a vida acaba é conseqüência de escolhas.
E o que vem depois?
Céu?
Inferno?
Purgatório?
Um novo tour of duty neste mundo, passando por tudo de novo?
Ou simplesmente o nada, o retorno ao pool de moléculas e genes, um ligeiro aumento da entropia do universo?
Eis o mistério da fé (independente de qual seja). Eis o caos, em sua forma absoluta. E é por isso que eu o amo – e o temo.