É o vento, e nada mais.

September 13, 2008

Ennui

Filed under: Devaneios — The Son of Nothing @ 9:54 pm

“Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.”

-Álvaro de Campos

Mais um dia sem sentido. Artur abriu os olhos, com uma expressão visivelmente acabada. Por que levantar? Para tomar café, escovar os dentes, vestir-se? Para bater cartão, sentar à mesa, rever papeladas, almoçar, ver mais papéis, voltar para casa? Não fora para isso que se esforçara tanto, que sacrificara sua juventude em meio a livros e exercícios. Tanto esforço, todos os anos na faculdade de engenharia, tudo isso para um empregozinho medíocre – que pagava muito bem, é verdade; mas não menos medíocre por conta disso -, para passar oito horas por dia de paletó e gravata atrás de uma mesa.

Mesmo assim, saiu da cama, mais por força do hábito que por vontade própria, e foi mecanicamente tomar seu café. Esquecera-se de que a esposa não mais morava lá; estavam tão distantes ultimamente que mal notou quando ela sumiu de vez da casa. Mas o silêncio de súbito o atingiu como todas as discussões não haviam conseguido. Parou de andar em direção à cozinha; não estava mais com fome. No lugar disso, seu estômago se embrulhou, como se quisesse botar algo para fora. O quê? Vestiu-se apressado e foi para o carro, seus passos metódicos substituídos por um andar hesitante, quase ébrio.

Olhou-se no retrovisor. A gravata estava desalinhada; o cabelo, idem. A cabeça, no entanto, era o que mais estava em desarranjo. Idéias vinham e passavam, turbilhões de sensações reprimidas despertando e morrendo em átimos de segundo. Já não era mais jovem, e a memória de tudo aquilo que deixou para trás agora o atingia como um tiro. Teria valido a pena desistir de seus sonhos da mocidade? Não era infeliz, na verdade, e seu patrimônio era invejável.

O sinal à sua frente fechou; absorto em seus pensamentos, Artur se atrasou um instante em pisar nos freios. Sua Mercedes destruiu a traseira do carro que vinha à frente – um Gol, Escort, ou algum dos carros que aparecem aos milhares em qualquer cidade -, mas Artur não se importou. O que fizera com a vida? Se não era triste, também não era feliz. Trocara as paixões e os sentimentos pelo método, pela realização dos objetivos mais práticos. Construíra para si um mundo sem dor, sem erro; mas isso não era uma vida.

Lembrou de Camila, a quem tanto amara outrora. Ela saíra de casa após várias tentativas de consultar terapeutas de casais, de discutir a relação. Ela xingava, esperneava, ameaçava, mas ele nunca disse nada, nem mesmo quando ela foi embora. Não poderia, se não sua realidade criada desmoronaria como um castelo de cartas. Tudo aquilo por que ele lutou tanto tempo e perdeu tudo, ele não poderia desistir tão facilmente disso. Ou poderia? Precisava fazer algo.

As sirenes do resgate se aproximavam do lugar do acidente. O celular começou a tocar; possivelmente era a secretária perguntando sobre o atraso. As pessoas começavam a se amontoar em torno dos carros, obstruindo a passagem do tráfego pela avenida. Artur abriu a porta de seu carro, quase intacto pela colisão frontal. Essa era a hora. Talvez ainda houvesse algum jeito. Jogou o paletó na calçada e partiu, rumo ao nada (ou ao infinito).

Novamente sobre o vestibular

Filed under: Devaneios, Redação — The Son of Nothing @ 8:20 pm
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Maturidade. Mais do que uma avaliação de conhecimento, o exame conhecido como “vestibular” busca selecionar, dentre uma vasta quantitade de candidatos – majoritariamente jovens -, aqueles com o perfil adequado para um curso de Ensino Superior; funciona, desta forma, como um rito de passagem, em que o sucesso é acompanhado da aceitação e o fracasso tem um grande preço.

O objetivo principal do vestibular não é a avaliação do conteúdo aprendido durante o Ensino Médio brasileiro, notadamente deficitário e por demais orientado ao desempenho nos exames de admissão às universidades. Se fosse, não existiriam iniciativas como o Inclusp, que aumenta a nota no vestibular da FUVEST dos alunos que fizeram o Ensino Médio em escolas públicas, uma vez que tais programas favorecem alunos que teoricamente carecem da base teórica daqueles que atingiram notas semelhantes, mas sem contar com nenhum bônus. No entanto, mesmo quando não foram tornadas obrigatórias por leis, elas existem.

Ao contrário das cotas, o método atualmente em voga para a compensação das desigualdades da educação brasileira, sistemas que beneficiam os alunos através de acréscimos percentuais sobre a nota conseguem fazer o papel inclusivo ao mesmo tempo que retêm o caráter discriminatório do vestibular. Por recompensar mais aqueles alunos que tiveram um bom desempenho, tais programas visam nivelar o vasto abismo existente entre as escolas públicas e privadas no Brasil, permitindo que os alunos concorram em pé de igualdade, enquanto as cotas segregam os alunos beneficiados por elas, criando como que um concurso alternativo.

O vestibular é um método seletivo bem discriminatório (não poderia ser diferente, uma vez que as vagas não são suficientes para todos); mas se ele não discrimina o conhecimento adquirido na vida escolar prévia, quais são os seus critérios? Os manuais de vestibulares como o da USP e o da Unicamp oferecem várias visões, por vezes conflitantes. Em comum entre tais exames, porém, exite o objetivo de identificar o que o ENEM chama de competências: a capacidade de interpretação, de raciocínio lógico, essencial para o aluno de qualquer curso universitário. A introdução das questões interdisciplinares no vestibular da FUVEST evidencia o fato de que, mais do que o aluno que tenha conhecimento prévio, busca-se aquele com maior capacidade de aprendizado e desenvolvimento mental – e psicológico, uma vez que é necessário lidar com o estresse decorrente das pressões com relação ao sucesso no exame.

A pressão sobre os jovens é ainda maior. Um adulto, ao prestar vestibular, está tenntando melhorar de vida ou realizar um sonho, mas sua vida já está basicamente encaminhada; já o jovem possui um imperativo: ele deve passar, para conseguir um bom emprego e satisfazer as exigências da família, da sociedade. Para os adolescentes, o vestibular passa a ser um rito de passagem para a vida adulta, como o seria a circuncisão ritual em tribos africanas. Para os bem-sucedidos, permite-se o acesso ao Ensino Superior, abrindo muitas possibilidades profissionais e pessoais para o futuro. Àqueles que fracassarem, no entanto, restam atividades tidas como socialmente inferiores.

Deve-se o formato do exame vestibular às condições sociais e econômicas presentes no Brasil contemporâneo, que fazem com que o ingresso em um curso universitário seja a diferença entre uma vida economicamente confortável e a carestia, entre a ascenção social e a marginalidade. Dessa forma, o vestibular se assemelha em propósito – se não em forma – aos ritos de passagem para a vida adulta de tribos ao redor do mundo. Mesmo a brutalidade e a dor presente em alguns destes encontra paralelo no estresse a que se submetem os jovens. A essência é a mesma.

August 30, 2008

Um belo despertar

Filed under: Devaneios, Literatura — The Son of Nothing @ 4:48 pm
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Depois de um longo interlúdio, volto a postar neste blog – muito negligenciado ultimamente por mim, como todo o lado pessoal; vestibulares e outros processos seletivos tomam o meu tempo ultimamente -, mas dessa vez sobre um tópico que creio ainda não haver abordado nem aqui nem no (que Deus o tenha!) Far Beyond Sanity.

Literatura não era um assunto que realmente me atraísse. Desde a mais tenra idade, tenho uma paixão pela leitura, mas até recentemente ela se restringia à Ficção Científica e a livros técnicos e de Ciências Humanas, não incluindo quase nada que sequer lembrasse clássicos da literatura (não que isso torne aquele tipo de leitura menos válido ou provocador de reflexões). Só no Poliedro é que fui tomar contato com os clássicos da Literatura brasileira e mundial, em uma fase particularmente crítica de minha vida. Minhas reflexões políticas foram acompanhadas por “Os Miseráveis” e “Vidas Secas”; minhas desilusões amorosas, por “Dom Casmurro”.

Inicialmente motivado pelo simples desejo de obter nota, meus contatos com a Literatura foram se expandindo cada vez mais, de tal forma que um ano foi o suficiente para converter o jovem chucro e sonhador que cruzou as portas d’O Ateneu em alguém completamente diferente. Tomei gosto por Castro Alves, por Drummond, por Graciliano Ramos e por uma miríade de outros autores que aterrorizam jovens que vão prestar vestibulares.

No entanto, não havia tido contato com a obra de uma das maiores escritoras que o Brasil já produziu: Clarice Lispector. Sempre via as obras dessa brasileira naturalizada sendo comparadas àquelas de autores do quilate de Machado de Assis e Guimarães Rosa, simplesmente os dois maiores autores em prosa já produzidos por este país. Nunca entendi o porquê, até que, há pouco tempo, fui fortemente encorajado a ler “Laços de Família”, coletânea de contos da autora supracitada. E devo dizer que, embora não me arrependa nem um pouco da leitura, fico feliz de não tê-la feito antes.

Não é à toa que existe o medo de Clarice, a tendência a tratá-la como uma autora dificílima. A dificuldade, porém, não está no nível lingüístico; ao menos nos livros dela que li, a linguagem não chega nem mesmo perto da complexidade presente em Guimarães Rosa. A arduidade também não vem da riqueza das personagens femininas presentes em sua obra; perto de mulheres como Macabéa, a Laura de “Imitação da Rosa” ou a garota de “Felicidade Clandestina”, apagam-se os homens.

O verdadeiro problema, por assim dizer, que as pessoas têm com Clarice Lispector é que ela as faz pensar. Em maior ou menor grau, os textos de Clarice são o equivalente literário a um murro na boca do estômago, fazendo com que nos confrontemos com nossos medos, nossas incertezas, nossas angústias, nossa resignação. Quando mostra a Ana, de “Amor”, feliz com a vida medíocre que leva - e, ao se dedicar integralmente aos filhos e ao marido, aceitar e até desejar tal situação -, Clarice parece estar falando diretamente a cada um de nós.

A sensação resultante se aproxima da angústia ou ansiedade descrita pelos existencialistas, que, por sua vez, é o medo derivado da sensação de liberdade. Ao mostrar o quanto nós nos restringimos deliberadamente, Clarice provoca pensamentos. E isso nos assusta; afinal, o que, realmente, nos impede de pularmos de uma ponte a qualquer momento? As pessoas sempre buscam algo a que se agarrar, para não pensar nas outras possibilidades.

Essa posição do ser humano enquanto náufrago no mundo é justamente o que a maior parte das obras de Clarice expõe. Desculpas, desistência, fantasias, tudo isso são coisas que usamos para suprimir a sensação de liberdade. Mas qualquer situação, por mais insignificante que seja – como um cego mascando chiclete em um ônibus – pode romper esse equilíbrio instável.

July 31, 2008

Pequeno monólogo

Filed under: Devaneios — The Son of Nothing @ 1:12 am
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Jogos, máscaras. No fundo, as coisas são sempre as mesmas: ocultar, disfarçar, suprimir, adequar-se. Nada de sentimentos. Apenas a conformidade é esperada. A aceitação daquilo que é real, do que é esperado. Mas a realidade é uma prisão, talvez a mais insidiosa de todas. Só há uma escapatória, um último refúgio: o caos, o imprevisível.

Sem modelos ou previsões, por favor. Não me venham com Teorias de Tudo! Feliz é a marionete, pois ela não vê os fios que a regem. Já o homo sapiens, triste figura quixotesca enfrentado seus imperativos biológicos, é capaz de ver as paredes de sua cela. E isso o angustia. Quanto mais ele pensa, mais nítidos ficam os contornos.

Quando somos jovens, acreditamos que podemos mudar o mundo. Talvez possamos, talvez não. Mas, quando percebemos todo o poder que tínhamos, já é tarde demais – ele se foi, junto com a mocidade.

Existem limites antes que os enxerguemos, ou eles surgem de tanto que os buscamos? Ao tatearmos cegamente, encontramos as paredes de nosso claustro. Mas não sabemos se elas já estavam lá antes ou se apareceram por nossa insistência. Se você olha para o abismo, o abismo olha para você.

Talvez todo o problema esteja nessa ânsia de saber. Sem ela, seríamos completa e ridiculamente ignorantes. Mas a alternativa nem sempre é melhor. Para alguns, o conhecimento traz a felicidade; para outros, apenas angústia.

“Dorme agora…é só o vento lá fora.”

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