“Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.”
-Álvaro de Campos
Mais um dia sem sentido. Artur abriu os olhos, com uma expressão visivelmente acabada. Por que levantar? Para tomar café, escovar os dentes, vestir-se? Para bater cartão, sentar à mesa, rever papeladas, almoçar, ver mais papéis, voltar para casa? Não fora para isso que se esforçara tanto, que sacrificara sua juventude em meio a livros e exercícios. Tanto esforço, todos os anos na faculdade de engenharia, tudo isso para um empregozinho medíocre – que pagava muito bem, é verdade; mas não menos medíocre por conta disso -, para passar oito horas por dia de paletó e gravata atrás de uma mesa.
Mesmo assim, saiu da cama, mais por força do hábito que por vontade própria, e foi mecanicamente tomar seu café. Esquecera-se de que a esposa não mais morava lá; estavam tão distantes ultimamente que mal notou quando ela sumiu de vez da casa. Mas o silêncio de súbito o atingiu como todas as discussões não haviam conseguido. Parou de andar em direção à cozinha; não estava mais com fome. No lugar disso, seu estômago se embrulhou, como se quisesse botar algo para fora. O quê? Vestiu-se apressado e foi para o carro, seus passos metódicos substituídos por um andar hesitante, quase ébrio.
Olhou-se no retrovisor. A gravata estava desalinhada; o cabelo, idem. A cabeça, no entanto, era o que mais estava em desarranjo. Idéias vinham e passavam, turbilhões de sensações reprimidas despertando e morrendo em átimos de segundo. Já não era mais jovem, e a memória de tudo aquilo que deixou para trás agora o atingia como um tiro. Teria valido a pena desistir de seus sonhos da mocidade? Não era infeliz, na verdade, e seu patrimônio era invejável.
O sinal à sua frente fechou; absorto em seus pensamentos, Artur se atrasou um instante em pisar nos freios. Sua Mercedes destruiu a traseira do carro que vinha à frente – um Gol, Escort, ou algum dos carros que aparecem aos milhares em qualquer cidade -, mas Artur não se importou. O que fizera com a vida? Se não era triste, também não era feliz. Trocara as paixões e os sentimentos pelo método, pela realização dos objetivos mais práticos. Construíra para si um mundo sem dor, sem erro; mas isso não era uma vida.
Lembrou de Camila, a quem tanto amara outrora. Ela saíra de casa após várias tentativas de consultar terapeutas de casais, de discutir a relação. Ela xingava, esperneava, ameaçava, mas ele nunca disse nada, nem mesmo quando ela foi embora. Não poderia, se não sua realidade criada desmoronaria como um castelo de cartas. Tudo aquilo por que ele lutou tanto tempo e perdeu tudo, ele não poderia desistir tão facilmente disso. Ou poderia? Precisava fazer algo.
As sirenes do resgate se aproximavam do lugar do acidente. O celular começou a tocar; possivelmente era a secretária perguntando sobre o atraso. As pessoas começavam a se amontoar em torno dos carros, obstruindo a passagem do tráfego pela avenida. Artur abriu a porta de seu carro, quase intacto pela colisão frontal. Essa era a hora. Talvez ainda houvesse algum jeito. Jogou o paletó na calçada e partiu, rumo ao nada (ou ao infinito).