É o vento, e nada mais.

August 30, 2008

Um belo despertar

Filed under: Devaneios, Literatura — The Son of Nothing @ 4:48 pm
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Depois de um longo interlúdio, volto a postar neste blog – muito negligenciado ultimamente por mim, como todo o lado pessoal; vestibulares e outros processos seletivos tomam o meu tempo ultimamente -, mas dessa vez sobre um tópico que creio ainda não haver abordado nem aqui nem no (que Deus o tenha!) Far Beyond Sanity.

Literatura não era um assunto que realmente me atraísse. Desde a mais tenra idade, tenho uma paixão pela leitura, mas até recentemente ela se restringia à Ficção Científica e a livros técnicos e de Ciências Humanas, não incluindo quase nada que sequer lembrasse clássicos da literatura (não que isso torne aquele tipo de leitura menos válido ou provocador de reflexões). Só no Poliedro é que fui tomar contato com os clássicos da Literatura brasileira e mundial, em uma fase particularmente crítica de minha vida. Minhas reflexões políticas foram acompanhadas por “Os Miseráveis” e “Vidas Secas”; minhas desilusões amorosas, por “Dom Casmurro”.

Inicialmente motivado pelo simples desejo de obter nota, meus contatos com a Literatura foram se expandindo cada vez mais, de tal forma que um ano foi o suficiente para converter o jovem chucro e sonhador que cruzou as portas d’O Ateneu em alguém completamente diferente. Tomei gosto por Castro Alves, por Drummond, por Graciliano Ramos e por uma miríade de outros autores que aterrorizam jovens que vão prestar vestibulares.

No entanto, não havia tido contato com a obra de uma das maiores escritoras que o Brasil já produziu: Clarice Lispector. Sempre via as obras dessa brasileira naturalizada sendo comparadas àquelas de autores do quilate de Machado de Assis e Guimarães Rosa, simplesmente os dois maiores autores em prosa já produzidos por este país. Nunca entendi o porquê, até que, há pouco tempo, fui fortemente encorajado a ler “Laços de Família”, coletânea de contos da autora supracitada. E devo dizer que, embora não me arrependa nem um pouco da leitura, fico feliz de não tê-la feito antes.

Não é à toa que existe o medo de Clarice, a tendência a tratá-la como uma autora dificílima. A dificuldade, porém, não está no nível lingüístico; ao menos nos livros dela que li, a linguagem não chega nem mesmo perto da complexidade presente em Guimarães Rosa. A arduidade também não vem da riqueza das personagens femininas presentes em sua obra; perto de mulheres como Macabéa, a Laura de “Imitação da Rosa” ou a garota de “Felicidade Clandestina”, apagam-se os homens.

O verdadeiro problema, por assim dizer, que as pessoas têm com Clarice Lispector é que ela as faz pensar. Em maior ou menor grau, os textos de Clarice são o equivalente literário a um murro na boca do estômago, fazendo com que nos confrontemos com nossos medos, nossas incertezas, nossas angústias, nossa resignação. Quando mostra a Ana, de “Amor”, feliz com a vida medíocre que leva - e, ao se dedicar integralmente aos filhos e ao marido, aceitar e até desejar tal situação -, Clarice parece estar falando diretamente a cada um de nós.

A sensação resultante se aproxima da angústia ou ansiedade descrita pelos existencialistas, que, por sua vez, é o medo derivado da sensação de liberdade. Ao mostrar o quanto nós nos restringimos deliberadamente, Clarice provoca pensamentos. E isso nos assusta; afinal, o que, realmente, nos impede de pularmos de uma ponte a qualquer momento? As pessoas sempre buscam algo a que se agarrar, para não pensar nas outras possibilidades.

Essa posição do ser humano enquanto náufrago no mundo é justamente o que a maior parte das obras de Clarice expõe. Desculpas, desistência, fantasias, tudo isso são coisas que usamos para suprimir a sensação de liberdade. Mas qualquer situação, por mais insignificante que seja – como um cego mascando chiclete em um ônibus – pode romper esse equilíbrio instável.

3 Comments »

  1. Ótimo post. Diria que também nunca tive muito interesse por literatura. De uns dois, três anos para cá que passei a me interessar, principalmente por literatura estrangeira. Brasileira e portuguesa, alguns escritores não são de grande agrado à minha pessoa. Li Clarice ano passado e gostei bastante, mas ainda assim acredito que há obras melhores.

    Comment by Ludovico DeLarge — August 31, 2008 @ 12:19 am

  2. Clarice é mais que uma artista ela é “A Clarice”. Você escreve muito bem,
    fico comovida em saber que em meio a tantas elocubrações fantasmagoricas existem pessoas como você, realista e com bom gosto.

    Comment by mesmacoisa — October 25, 2008 @ 6:27 pm

  3. Clarice é perigora também, penso eu, porque vicia.
    Tive a impressão que só coseguiria ler ela depois do primeiro livro.

    Bom post, gostei muito de como escreve.

    Comment by Julia — January 28, 2009 @ 4:49 pm


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