UPDATE: Este texto foi originalmente postado no finado Far Beyond Sanity, em uma versão que desde então sofreu diversas modificações, omissões e adições. Como é um texto que eu particularmente gostei de fazer, decidi retirá-lo do cemitério ao qual a morte de tal blog o condenaria. Aproveitei, também, para dar mais algumas pinceladas no tema.
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O Amor é algo incompreensível e indefinível. Toda vez que alguém tenta descrevê-lo ou defini-lo, acaba sendo vago demais. “Amor é fogo que arde sem se ver” não quer dizer muito. Se fôssemos definir o amor de uma forma mais científica, acabaríamos nos referindo a ele como conseqüência de um conjunto de reações químicas no cérebro. Besteira. Só se pode falar do amor por exclusão ou através de suas conseqüências.
O Amor é algo muito diferente da paixão. Um pertence apenas ao plano das idéias, enquanto o outro é uma conseqüência da natureza animal do ser humano. A paixão visa apenas satisfazer as necessidades reprodutivas do ser humano – ou os impulsos pela reprodução -, a busca de um parceiro com características físicas atraentes para uma eventual prole. Já o amor é a busca por algo mais.
O Amor é algo que vai contra os instintos naturais. Como animais, deveríamos buscar sempre os parceiros mais aptos, para garantir uma prole forte e saudável. No entanto, não é isso o que acontece. Muitas vezes, o Amor surge em locais inesperados, de formas inesperadas e por motivos inesperados. Nem sempre o coração escolhe a pessoa que, por critérios objetivos apenas, seria a melhor opção.
O Amor é uma coisa confusa. Às vezes, ele aparece de mansinho, por sobre uma amizade que já existia há eras. Outras vezes, é algo súbito e instantâneo, aparecendo numa troca de olhares, em um sorriso, em uma música. De vez em quando, procuramo-no onde ele não existe, ou em lugares inusitados. Ou então, de forma completamente oposta, ele surge onde menos esperávamos, e só percebemos quando é tarde.
O Amor é algo que pode aparecer a qualquer momento. Muitas vezes, quando se é jovem e há um vestibular pela frente, não estamos preparados para lidar com um amor surgido em um momento de vulnerabilidade. Então simplesmente tentamos suprimir o que sentimos, fingir que não há nada e continuar a vida como antes da “catástrofe” romântica. Outras vezes, porém, o que nos dá forças para seguir adiante é justamente o ato de amar.
Amar é ter medo. Medo de que a pessoa amada não corresponda aos sentimentos. Medo de falar algo idiota e estragar tudo. Medo de expôr o que realmente se sente. Medo de que talvez aquela não seja a pessoa certa. Medo de fazer alguma coisa besta. Medo de perder a pessoa amada. Medo do futuro. Medo de ter medo. E o medo é o assassino da mente. Quantas oportunidades não perdemos simploesmente por medo?
Apesar de todos os temores, amar é um ato de coragem. É estar disposto a se abrir inteiramente (sim, inclusive na conotação maliciosa, dependendo das preferências de cada um) a uma outra pessoa, a abandonar totalmente o decoro. Ao amar, entramos em um território completamente não mapeado, esperando que tudo dê certo.
Como nem tudo na vida dá certo, o amor às vezes acaba. Paulo Mendes Campos escreveu um belo texto sobre isso. O problema é quando, apesar de tudo o que aconteceu, ele não acaba. Quando, mesmo após uma grande traição (uma não, duas!), ainda atendemos o telefone, em meio aos frios prédios de uma cidade hostil.
Quando, por não aceitar que as coisas nunca mais serão as mesmas, tentamos nos convencer que odiamos a pessoa a quem dedicamos tanto de nossas vidas – mesmo que por apenas alguns meses -, proferindo tantos insultos e palavras mordazes, mas sem nunca conseguirmos nos afastar de quem amamos. Ou quando, mesmo sabendo que as coisas nunca mais serão as mesmas, não queremos deixar a pessoa que amamos por tanto tempo se afastar.
Quando nada mais parece fazer sentido, agora que a pessoa se foi, é um problema. Algumas vezes, o amor que um dia existiu acaba sendo trocado por rancor ou por obsessão. Outras, tentamos construir um muro em torno de nossos sentimentos, para nunca mais nos machucarmos tanto. Nem sempre é fácil aceitar que a vida continua.
Mas continua. E, às vezes, o verdadeiro amor consiste em simplesmente deixar partir. Como disse Raul, “Amor só dura em liberdade/E o ciúme é só vaidade”. Por vezes, precisamos reconhecer que, se realmente amamos uma pessoa, a melhor solução é nos afastarmos. Nem sempre somos as pessoas ideais para quem amamos. Alguns ririam da noção de idealidade. Mas, afinal, o que é o amor se não uma idealização? Sem um forte componente de sonho, ele se torna algo indistinto da paixão carnal e barata.
Não só de pesar é feito o amor. Afinal, como disse Cícero, haveria maior prazer no mundo que encontrar uma alma amiga? Alguém com quem compartilhar as angústias e triunfos, mesmo que por apenas alguns momentos? Para podermos suportar a realidade, precisamos de algo que nos ampare.
Amar é não saber o que vem adiante, e não se importar. Afinal, temos um porto seguro ao qual retornar. É estar pronto para arriscar tudo, até a si mesmo, por outra pessoa. Certamente não é algo tão leviano quanto as inúmeras declarações de amor que vemos durante a vida nos levam a crer.
Pode-se passar uma vida inteira sem nunca amar de verdade. No entanto, tal vida seria algo extremamente triste. E besta.
Listening to: Summer ‘68 – Pink Floyd